quinta-feira, 27 de julho de 2017

7

7
Mas acabei tirando proveito desse atraso forçado em Araçatuba. Ou, como diriam alguns, há males que vêm para o bem.
Vagabundeando pela cidade, sem nada de útil pra fazer, meu passatempo era botequear, jogar conversa fora no ‘happy hour’ e tomar cerveja revendo os amigos que estivessem desocupados como eu. E uma vez (acho que era meu segundo ou terceiro dia em Araçatuba), bebericando no Cristal D’Oro (que era meu bar preferido na época), encontrei o Carlão (Carlos Gaspar), que era meu amigo de longa data e que eu não via há muito tempo; isso porque eu, até aí, morava em Brasília, e ele em Curitiba, de forma que a gente só se via às vezes, quando algum feriado prolongado ou alguma folga do emprego nos permitia viajar até a Araçatuba pra rever a família; e não era comum as folgas dele combinarem com as minhas, daí estarmos há tanto tempo sem nos encontrarmos...
Conversa vai, conversa vem...
Depois que os outros se foram (não lembro quem mais estava conosco) e que ficamos só eu e ele à mesa, já que éramos os únicos da turma a não ter porra nenhuma de compromisso para o dia seguinte, expus pra ele meus planos de viajar até Machu Picchu, e também o porquê de eu estar preso em Araçatuba por dez dias, sem poder partir de uma vez... Aí ele me falou:
― Ué, então cê ainda vai ter que ficar à toa por mais uma semana, mais ou menos, né...!?
― É, ― falei ―  até já comprei minha passagem pra Corumbá, mas para o décimo primeiro dia da data da vacina, pra ter uma margem de segurança e não ser barrado na fronteira da Bolívia... Dá mais ou menos uma semana, mesmo, de vagabundice por aqui...
― Então vamos comigo pra Curitiba! ― propôs-me ele ― Eu tenho que voltar ao trabalho em dois ou três dias, e vou voltar pra lá de carro, sozinho...! E se você não tem nada mesmo pra fazer, pelo menos me faz companhia na viagem...!
Olhei pra ele meio pensativo, já tinha tomado umas... Depois falei:
― Meu problema é dinheiro, Carlão... Não sei se vou poder ter essa despesa extra... Tô sem trabalho, preciso deixar uma grana reservada pra depois, pra quando eu voltar do Peru, pra eu poder me sustentar até arranjar um emprego novo... E não sei quanto tempo isso pode demorar... Não sei se convém não...
― Ára, deixa isso pra lá...! Cê só vai gastar o que já gastaria estando aqui em Araçatuba, com comida e bebida! Voltar pra Curitiba, isso eu vou ter que fazer mesmo, com ou sem você...! E vou de carro, como já te falei, e sozinho, ou seja, cê vai de carona, não precisa gastar com combustível...! E lá a gente dorme no hotel, já tenho meu quarto reservado, quarto duplo, pago pela empresa...! Cê não vai gastar com pernoite, também...! O gasto vai ser só com o que cê for comer e beber, então...! Que é o que cê já tá fazendo estando aqui...!
― Mas e a volta, Carlão? Você vai ficar por lá, eu não, eu vou ter que voltar de ônibus...!
― Besteira, eu te ajudo a pagar a passagem, tô endinheirado e solteiro!
É, o argumento era convincente... E eu já tinha tomado umas... E eu não perderia nada com isso... E eu conheceria uma cidade que eu ainda não conhecia... E viajar de graça é sempre bom...
― Então, vamos!? ― falou-me ele ― A gente vai sem pressa, parando pelo caminho, aproveitando o passeio...! Dá pra passar por Vila Velha, Furnas, Ponta Grossa...! Bora!?
Cedi. Ergui meu copo e falei:
― Um brinde a Curitiba!!


Partimos já na manhã seguinte, sem compromisso nenhum que não fosse estar em Curitiba quando o Carlão tivesse que se reapresentar para o trabalho, dali dois ou três dias...



Nenhum comentário:

Postar um comentário